O Diálogo de Paulo Freire e Dom Helder Camara em Torno da Educação Libertadora

Por Prof. Condini

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Neste artigo apresentarei a educação libertadora de dom Helder à luz da pedagogia de Paulo Freire, isto significa que a prática de dom Helder está diretamente relacionada com a pedagogia de Paulo Freire e que este artigo é uma leitura da pedagogia de Helder à luz de Freire.

Isto não significa afirmar que a educação libertadora de dom Helder tenha surgido a partir da pedagogia freireana, mas apenas sustentar que há uma relação direta entre o pensamento e as ações de dom Helder e Paulo Freire. Pretendo mostrar essa relação, pois, para ambos, pobres ou pequeninos, como dizia dom Helder, ou os oprimidos, termo utilizado por Paulo Freire, foram os elementos geradores da construção dos seus pensamentos e práticas.

As semelhanças históricas entre dom Helder e Paulo Freire colaboraram para que tivéssemos uma convergência de ideias em relação ao que ambos pensaram, realizaram e produziram ao longo de suas vidas2.

Ambos nordestinos, um cearense e um pernambucano, oriundos de famílias humildes, tiveram de enfrentar problemas típicos das famílias nordestinas que viviam nas áreas urbanas3: o esforço para o sustento da família, a criação dos filhos e as dificuldades em propiciar a eles uma formação escolar digna e de qualidade.

Após a infância e a adolescência, ambos tiveram rumos profissionais diferentes: dom Helder se tornou um religioso e Paulo Freire, após a formação em Direito, enveredou para a área educacional como professor de língua portuguesa e, posteriormente, tornou-se também um educador. Apesar de dom Helder ser doze anos mais velho que Paulo Freire, eles foram contemporâneos no século XX.

Suas histórias de vida seguiram diferentes caminhos, mas tiveram durante suas carreiras uma preocupação comum: a questão com os excluídos e oprimidos. Atuaram na sociedade com o intuito de possibilitar aos menos favorecidos condições para que os mesmos pudessem se tornar pessoas livres, isto é, em condições de entender a sua realidade e, a partir dela, transformá-la; cada um deles com a sua prática, mas se utilizando de recursos semelhantes.

As circunstâncias históricas fizeram com que ambos, no início do Governo Militar (1964-1985), estivessem vivendo na cidade de Recife. Dom Helder, recém chegado, transferido da cidade do Rio de Janeiro e Paulo Freire, vivendo em sua cidade natal. Nesse período do Governo Militar, Dom Helder e Paulo Freire foram perseguidos pelo regime de exceção.

Paulo Freire, ainda no ano de 1964, foi preso e exilado do país, retornando apenas em 1980. Durante o período no exílio, Paulo Freire produziu todo o arcabouço daquilo que mais tarde veio a ser chamado de pensamento freireano. Paulo Freire teve na experiência do trabalho de alfabetização de adultos no nordeste brasileiro a inspiração para escrever a obra que foi a espinha dorsal do seu trabalho como educador, a Pedagogia do Oprimido, escrita no exílio, no Chile em 1968.

Dom Helder, pela sua condição de arcebispo de Olinda e Recife, pela notoriedade que obteve em função do seu trabalho no Rio de Janeiro e pela liderança que representava dentro da Igreja, permaneceu no Brasil, mas sofreu intensa perseguição do governo, juntamente com seus auxiliares da Arquidiocese de Olinda e Recife, por fazerem oposição ao governo militar.

É inegável que no período ditatorial, mas não só nele, dom Helder e Paulo Freire tiveram intensa influência na formação do pensamento educacional e social brasileiro. Ambos realizaram trabalhos que contribuíram no meio intelectual, como também nas camadas populares da sociedade.

Isso pode ser constatado por meio dos acontecimentos históricos daquele período: Paulo Freire foi perseguido, preso e exilado; dom Helder foi impedido por quatro vezes de receber o prêmio Nobel da Paz e censurado por quase uma década dentro do seu país. Essas perseguições sofridas por ambos fez com que suas vozes e ideias ecoassem fora do Brasil, em oposição à ditadura militar, e a determinação de suas posturas fez com que defendessem suas ideias mesmo com dificuldades e até ameaças pessoais.

Apesar da aproximação histórica de dom Helder e Paulo Freire, de sua contemporaneidade, de morarem na mesma cidade3, ambos nunca realizaram ou produziram algum estudo ou trabalhos juntos. O que podemos constatar é que ambos, em alguns momentos, referiram-se um ao outro de maneira respeitosa, mencionando o trabalho realizado.

Quando Paulo Freire foi libertado da prisão e dom Helder pensou em convidá-lo a auxiliar no trabalho da pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Helder, na época, fez a seguinte menção ao método de alfabetização de adultos de Paulo Freire: “[…] o método está longe de ser apenas mera alfabetização […]” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 257).

O arcebispo de Olinda e Recife foi um importante interlocutor de Paulo Freire na Igreja, principalmente como elo para a reflexão e entrada do pensamento pedagógico libertador no meio eclesiástico. Após a leitura do livro Pedagogia do Oprimido, em 1971, dom Helder considerou-o “[…] de alcance decisivo para se obter a medida adequada de conscientização, evitando que o oprimido de hoje se transforme no opressor de amanhã” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 340).

Em função do exílio de Paulo Freire, dom Helder o via “[…] como embaixador especial de nosso gênio e de nossa cultura […]” (Ibidem, p. 341), como escreveu em carta à revista Visão, em setembro de 1971, indicando o educador para o título de Homem de Visão daquele ano. A essa atitude de dom Helder, Paulo Freire, que mantinha pelo arcebispo a mesma admiração, escreveu-lhe agradecendo a indicação.

Em entrevista ao professor Celso de Rui Beisiegel, em 1980, Paulo Freire relatou que “os dois haviam se tornado amigos nos anos 60, quando se aproximaram por intermédio da professora Anita Paes Barreto, e das assistentes sociais Lourdes de Moraes, Dolores Coelho e Hebe Gonçalves, amigas de ambos e colaboradoras das obras sociais de dom Helder em Recife” (Ibidem, p. 341).

Os diálogos entre Paulo Freire com os mais diferentes grupos sociais em torno do assistencialismo teceram a maneira ideológica dele elaborar e atuar em prol dos menos favorecidos. A questão assistencialista o incomodava e, também, os que praticavam o assistencialismo. Em relação a dom Helder, Paulo Freire o colocava fora de uma postura meramente assistencialista, opinião com a qual também concordo.

Esses dois pensadores brasileiros do século XX tinham várias coisas em comum, mas quero destacar, a defesa de uma educação libertadora, pois ambos acreditavam que excluídos e oprimidos da nossa sociedade só sairiam dessa condição por intermédio de uma formação onde os mesmos conquistassem a sua liberdade, ou seja, tivessem um entendimento do mundo a partir da sua realidade para assim, poder transformá-la.

Para Freire, a luta em busca da liberdade se dá simultaneamente em duas esferas: no campo da interioridade humana (consciência) e no campo sociopolítico. A prática da busca pela liberdade está na constante luta pela superação das relações opressoras na sociedade. A liberdade será alcançada quando os homens lutarem pela libertação de todos.

Paulo Freire elaborou exaustivamente o que chamou de libertação:

[…] em sua obra de 1985, intitulada A Política da educação: cultura, poder e libertação. No livro Freire associa a libertação com os oprimidos, os revolucionários, a educação e a Igreja. Freire acreditava que o futuro dos oprimidos é a ‘realização de sua libertação – sem a qual eles não podem ser”. (STRECK, REDIN e ZITKOSKI, 2008, p. 247)

Paulo Freire construiu uma pedagogia libertadora que permeou todo o seu trabalho educacional. A liberdade, a libertação, como a conscientização e a humanização, foram elementos importantes para a construção da pedagogia freireana. Para ele, as pessoas que acreditam na educação libertadora estão comprometidas com uma “[…] práxis social […], ajudando a libertar os seres humanos da opressão que os sufoca em sua realidade objetiva […]”. Ele acreditava que “a educação verdadeiramente libertadora só pode ser posta em prática fora do sistema comum, e mesmo assim com grande cautela, por aqueles que superam sua ingenuidade e se comprometem com a libertação autêntica”. (Ibidem, p. 248)

Paulo Freire entendia as relações humanas dentro de um processo libertador por meio do diálogo, em que as pessoas juntas vão tomando consciência de maneira crítica da realidade e a partir daí procuram tomar atitudes que possibilitem fazer mudanças, transformar as suas realidades. Para que homens e mulheres atingissem sua libertação seria necessário se fazer outra leitura do mundo e agir sobre ele.

Para dom Helder, a educação é um dos meios de possibilitar a criação de outra sociedade, de um mundo mais justo e humano. Ele se referia ao processo de uma educação libertadora: “[…] a educação parece, em grande parte, fora da realidade, da verdade, pois não está libertando. E precisamos vitalmente, urgentemente, da coragem de nos unirmos para a educação libertadora. Eis a missão máxima do homem de nossos dias […]” (CAMARA, 1976, p. 57). O seu questionamento aos setores educacionais era: “[…] a educação que gerou o nosso mundo, liberta ou escraviza?” (Ibidem, p. 55). Tais questionamentos demonstravam que, para dom Helder, as instituições educacionais necessitavam de profundas transformações.

Ele acreditava que era necessário a sociedade se unir para realizar uma educação libertadora, pois, por meio dela, o homem se tornaria não só o principal responsável pelo destino da humanidade como também o construtor de sua história.

A educação libertadora deveria ensinar a importância da humanização, o respeito aos direitos humanos, a justiça, a conscientização política e a igualdade social. Essas propostas apontam para a possibilidade de se construir uma sociedade onde as pessoas se tornem agentes da própria história, condutoras do próprio destino, precursoras do desenvolvimento.

Helder e Freire sempre tiveram coragem de enfrentar desafios e propor mudanças para a melhoria das condições de vida da população e reconheceram na educação libertadora um dos principais elementos para as pessoas realizarem as tão sonhadas transformações sociais.

Apesar da distância física de ambos, Helder e Freire sempre estiveram juntos na esperança de que era possível construir um mundo mais justo, digno e fraterno para todos.

Concluindo, quando penso na “Escola dos Meus Sonhos”, inevitavelmente me vem à lembrança Helder e Freire, pois estou convencido que o trabalho de ambos foi e ainda o é importantíssimo para a construção da “Escola dos Nossos Sonhos”. A “Escola dos Meus Sonhos”, é aquela escola onde a educação seja libertadora, onde as pessoas pensam e se expressam a partir do seu lugar de fala e olhar de mundo, para que possam sair da sua condição de oprimido e adquirirem sua autonomia.

Notas de rodapé

1 Este artigo faz parte do livro A Escola dos Meus Sonhos [livro eletrônico]/Paulo Roberto Padilha…[Et Al] organizadores, São Paulo: Instituto Paulo Freire.2019. p.255 a p.260.

2 Dom Helder, na cidade de Fortaleza, e Paulo Freire, na cidade de Recife.

3 Dom Helder chegou a Recife em abril de 1964 e Paulo Freire vai para o exílio, na Bolívia, em outubro desse mesmo ano.

Referências Bibliográficas

CAMARA, Helder P. O deserto é fértil. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976.

CONDINI, Martinho. Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire. São Paulo: Paulus Editora. 2014.

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara: o profeta da paz. 2ª Ed. São Paulo Contexto, 2008.

STRECK, Danilo R, ; REDIN, Euclides; ZITKOSKY, Jaime J. (Orgs.) Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte, MG; Autêntica, 2008.

Sobre o Autor

Professor Condini

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Professor e Palestrante