Teoria sobre o funcionamento do sonho

Por Leni Lourenço

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O sonho, à primeira vista e julgamento, não parece ser uma continuidade da vida de vigília, da alma ou espírito humano, por causa da forma desconcertante e impactante com que ele se apresenta em seu processo de elaboração, todavia, por mais que não queiramos admitir, ele representa sim, aspectos da realidade vigil. O sonho não constitui um fato exterior e, sobretudo, casual, como muitos pensam. Deriva para esta forma de ele ser encarado. É um fato físico-químico que faz parte da natureza do indivíduo. O que difere o sonho da atividade vigil é o fato de esta seguir uma linearidade mediante os conteúdos da consciência através de uma continuidade lógica e racional enquanto aquela não segue uma linearidade lógica e racional e perfeitamente discernível como acontece no estado psicológico de vigília. Dito isto, fica fácil afirmar que o conteúdo intrínseco do sonho contrasta veementemente com o pensamento consciente.

Freud (2010) afirma em sua obra-prima “A interpretação dos sonhos” que os sonhos são confeccionados pelos “restos diurnos”, isto é, por todas as experiências vitais do indivíduo: sentimentos, pensamentos e ações pessoais; neste sentido, os sonhos têm uma função retroativa, quer dizer, de volta para trás, a fim de explicar a origem ou motivo desencadeador do sonho. Todavia “quem quer que se interesse vivamente pelo problema dos sonhos, não deixará de notar que os sonhos possuem também – se me permitem a expressão – uma continuidade para frente, pois ocasionalmente os sonhos exercem efeitos notáveis sobre a vida mental consciente, mesmo de pessoas que não podem ser qualificadas de supersticiosas e particularmente anormais. Estas sequelas ocasionais consistem, a maior parte das vezes, em alterações mais ou menos nítidas de estados de alma”.

A continuidade para frente de que Jung (1986) fala é, na verdade, a finalidade do sonho e nisso ele está certo, visto que alguns tipos de sonhos, senão todos eles de um modo geral, influenciam diretamente o nosso modus vivendi de maneira a nos fazer refletir acerca do conteúdo experienciado, após acordarmos, querendo saber não apenas o motivo pelo qual sonhamos, sua causa, mas sobretudo, qual a sua finalidade para nossas vidas. Pergunta: para onde é que os sonhos nos levam e o que ele nos reserva enquanto nós estamos nos braços de Morfeu, deus grego dos sonhos? Como já disse, o sonho nos leva para um mundo surreal onde fragmentos da realidade do estado psicológico de vigília sofrem aquilo que Freud chamou de condensação e deslocamento, quer dizer, unificação de várias imagens e transferência de afetos, sentimentos, pensamentos, ações etc.

Freud afirmou inúmeras vezes que o sonho é o “guardião do sono” a partir do pressuposto de que, por meio do sono, nós podemos continuar dormindo ou não, neste sentido o sonho nos reserva uma forma específica de proporcionar o descanso para o corpo e para a alma. Nisso Freud está com a razão, pois todos os estudos a respeito da neuropsicobiologia dos sonhos asseveram que a ausência de sono e, por extensão, de sonho, causa sérios problemas físicos, mentais e emocionais para o indivíduo levando-o a ficar doente. Em outras palavras: a privação do sono atua sobre o equilíbrio psíquico como um potente agente estressante; quem já teve a oportunidade de ficar uma noite sem dormir certamente já sentiu o extremo estado de fadiga física e mental em um momento posterior à privação do sono e, por conseguinte, de sonhar.

Em síntese, na privação do sono podem surgir algumas alucinações visuais e hipnagógicas. O sonho por si só já constitui uma alucinação, uma deformação daquilo que consideramos coerente, logico e racional. O sonho, normalmente, embora se refira a fatos do dia-a-dia, são extremamente contraditórios às ideias, os sentimentos, e os pensamentos nele contidos. “Quando examinamos um sonho, embora seja a reprodução de coisas passadas, raramente constitui uma reprodução exata do que se passou; quase invariavelmente difere da experiência que tivemos durante determinado dia, quer nos detalhes, quer no tom emocional”.

Os sonhos que irrompem do nosso sono revelam-nos com uma linguagem sui generis uma das formas como o inconsciente se apresenta para nós com seu modo específico de falar. É uma fala, se é que se pode afirmar que se trata de uma fala, que se configura em linguagem hieroglífica e não-raro indecifrável: tamanha a quantidade de símbolos, imagens desconexas e mais uma infinitude de materialidades de significados verbais que, para serem compreendidos, necessitam de um trabalho de desconstrução, isto é, de interpretação. Entretanto, os sonhos tratam-se, sim, de uma fala, porque, na sua essencialidade, ele reproduz algo que o inconsciente tem para nos dizer, ainda que em linguagem simbólica. O inconsciente, por intermédio dos sonhos, diz aquilo que tem para dizer mesmo sem o conhecimento ou sem a audiência do réu que somos nós: trabalha por conta própria.

Sobre o Autor

Leni Lourenço

LENI LOURENÇO
Consultor, Escritor, Psicanalista, Professor e Palestrante