Desenvolvimento de Cidades pela Economia Criativa e Cultura

Por Helga Tytlik

Artigo_Desenvolvimento de Cidades pela Economia Criativa e Cultura

Desde Joseph Schumpeter (1930), passando por Baumoll & Bowen (1965) e Amartya Sehn (1993) o conceito que hoje define a economia criativa vem sendo lapidado. Portanto, há quase 70 anos discute-se que o PIB não é suficiente para medir o desenvolvimento, o que foi consolidado com a inclusão da cultura como eixo de desenvolvimento pela UNESCO em 2015. Neste novo olhar sobre a economia alia-se ao parâmetro econômico a visão de qualidade de vida, equidade, bem-estar e pensamento coletivo e participativo sobre o território. Só é possível termos crescimento sustentável quando todas as camadas sociais, econômicas e culturais são beneficiadas pelo processo de desenvolvimento. Para que este conceito possa ser aplicado de forma bem fundamentada e assertiva, é imprescindível promover-se a circulação de conhecimento, experiências de vida e observação do perfil cultural do território/cidade o que por si só já estimula a criatividade e aumenta o repertório em busca de soluções não convencionais.

Neste prisma, as indústrias criativas e culturais são vetores QUASE prontos para serem impulsionados e rapidamente promoverem transformação social, além de econômica e cultural.

Erroneamente entendido como monetização da cultura, a economia criativa, na verdade, ressalta a importância dos processos de criação que devem ser preciosamente preservados, pois neles está a quebra de paradigma de pensamentos que ¨encaixotaram¨ a capacidade criativa através de antigos processos de educação ou regras sociais que limitam/limitaram este exercício.

Para que isto se concretize é necessário investimento em conhecimento (aliás, a principal moeda desta economia) para que cada um dos pilares envolvidos seja conscientizado sobre seu potencial nesta potente engrenagem. Considero os seguintes quatro pilares para sustentação deste processo: setores culturais/criativos, sociedade civil, setor público, setor privado.

Os setores culturais (artes nas mais diversas linguagens, festas populares/regionais, patrimônio, museus e casas de memória e outros) que contém valores simbólicos culturais, por sua vez são excelentes no fortalecimento do pertencimento aliado a inserção social. Sua cadeia produtiva se estende a vários níveis tanto criativos como não criativos movimentando extensa rede de possibilidades de impacto.

Ao promover fruição das mais diversas expressões artísticas, sua cadeia produtiva se expande, abrindo possibilidade de geração de trabalho e renda alternativos. Os setores criativos (games, aplicativos, software, arquitetura, urbanismo, biotecnologia e correlatos) que em geral impactam em propriedade intelectual, estão muito acelerados impulsionados pela tecnologia e na ponta do mapeamento econômico.

Temos ainda um descompasso da tecnologia entre os dois principais tipos de indústrias citados, mas é questão de tempo para que este ajuste aconteça. Ciência e a tecnologia são as grandes parceiras da economia criativa.

Ainda no campo dos setores culturais/criativos, torna-se necessário que artistas e envolvidos nestas áreas atuem como empreendedores, como em qualquer outra profissão, soltando-se da dependência de leis de incentivo (que são importantes impulsos, mas não devem ser a base de sobrevivência do setor) e explorando mais as potencialidades de seu processo e cadeia produtiva.

Com relação a sociedade civil, o distanciamento da fruição cultural deve ser minimizado para que o processo de estimulo criativo se torne mais presente. Ao alimentar o acesso às atividades artísticas e sobre o conhecimento do seu processo, a arte passa a ser agente de transformação para compreensão, participação e novos olhares da sociedade sobre arte como um setor produtivo, educativo, de inclusão e participação social.

Já é comprovado que cultura é investimento e não gasto.

O setor público é o que mais fácil trânsito tem entre os demais pilares e torna-se o coração operacional deste processo. Cabe a ele fomentar a formação, capacitação e conexões sobre as potencialidades da economia criativa tanto entre as demais secretarias como cultura, turismo, desenvolvimento econômico, assistência social, e outras pertinentes assim como junto aos demais pilares já citados para desenvolvimento da cidade. Também promover leis de incentivo e programas específicos, que, bem aplicados e alinhados a este conceito por si só já tem capacidade de gerar resultados tanto no PIB como nos programas sociais. Temos o exemplo de Salvador que há alguns anos organiza seu carnaval com este olhar e consegue retorno de $5 para cada $1 investido – o carnaval, é sem dúvida, uma das expressões populares de maior potencial de investimento tanto público como privado e seu retorno pode auxiliar financeiramente a educação, segurança e saúde da cidade (claro, com programas bem elaborados, não apenas o evento em si). Outro exemplo: Paraty que com a FLIP triplicou o PIB e criou emprego e renda alternativos à pesca local. Referência é também a antiga Lei Rouanet já gerava $0,59 de rendimentos para cada $1,00 investido em propostas convencionais, imagine se estes fossem pensadas a partir do conceito da economia criativa.

O setor privado por sua vez, ganha em investir em cultura participando da melhoria social e econômica do território contribuindo na circulação da economia formal da cidade com consequente impacto em si mesma. Santa Rita do Sapucaí, Cidade Feliz em Minas Gerais é um excelente exemplo de atuação dos 4 pilares assim como Belo Horizonte que criou a primeira Casa do Empreendedor Criativo para auxiliar esta transição e Guamiranga que se reinventou a partir do Jazz.

Resumindo: como diz Cainha (Ana Carla Fonseca Reis, a maior referência brasileira no tema), economia criativa é ganha-ganha: todos são beneficiados.

Sobre o Autor

Helga Tytlik

HELGA TYTLIK
Palestrante